
A IP – Infraestruturas de Portugal está a construir uma nova linha ferroviária entre Évora e Badajoz, já em Espanha, que deverá entroncar na fronteira do Caia, na Linha do Leste, perto da estação de Elvas. No entanto, o traçado definido para este percurso exclui esta estação, o que inviabiliza o serviço de passageiros nesta cidade. Do mesmo modo, também não está contemplada a construção de uma nova estação, que teria um custo marginal face aos 480 milhões de euros investidos na empreitada.
Assim, os comboios de passageiros procedentes de Lisboa e com destino a Évora teriam de andar mais quatro quilómetros e inverter a sua marcha na estação de Elvas, de modo a prosseguir depois à fronteira luso-espanhola. Estas manobras iriam penalizar a viagem em cerca de 10 a 15 minutos, numa linha preparada para velocidades na ordem dos 250 km/h.
Em declarações ao jornal Público (acesso pago), a CP – Comboios de Portugal explicou que esta situação reduz o potencial face a soluções de transporte de passageiros que possam vir a ser definidos para a região. A atual administração da empresa está a estabelecer contactos com o Ministério das Infraestruturas e da Habitação, com o objetivo de descobrir a melhor forma de servir o local e definir condições que permitam viabilizar o serviço comercial de passageiros.
Esta foi uma possibilidade discutida pelo Ministério das Infraestruturas, que afirmou que com esta ligação os comboios Intercidades que atualmente fazem o percurso Lisboa – Évora ficariam a duas horas de Badajoz, caso aí fossem prolongados. Por outro lado, Évora ficaria a meia-hora da fronteira espanhola.
O projeto que está em desenvolvimento e foi definido pelo Governo como a maior linha ferroviária do último século constitui um downgrade face ao antigo projeto de alta velocidade entre Lisboa e Madrid, que incluía a construção de uma linha dupla para alta velocidade e uma linha de via única para mercadorias. Mais tarde, no período do pós-troika, o Governo atual mudou de ideias, e definiu que apenas seja construída uma via única para mercadorias, com perfil de alta velocidade.

Ao Público, o Ministério das Infraestruturas e Habitação respondeu que o atual projeto “tem uma velocidade de traçado sempre igual ou superior a 250 Km/hora, pelo que pode ser classificada como uma linha de alta velocidade, de acordo com a directiva 96/48/EC”, para além de que a prioridade ao transporte de mercadorias “não pode comprometer as
ambições futuras para o transporte de passageiros, em particular, a possibilidade de ligar Lisboa a Madrid num tempo inferior a três horas”.
No anterior projeto estava prevista a construção de uma única estação para a alta velocidade, que iria servir em simultâneo Elvas e Badajoz. No entanto, o investimento caiu por terra quando se optou por passar à construção de uma linha focada para o transporte de mercadorias.
Acerca da construção de uma futura estação em Elvas, o Ministério respondeu que “as condições operacionais que possibilitam os futuros serviços ferroviários a Elvas foram devidamente ponderados no planeamento desta ligação, tendo em conta o longo prazo e uma escala geográfica bastante mais alargada”. Assim, os investimentos que serão agora aplicados deverão ser aproveitados no futuro.
AUTARCAS pedem que população não seja esquecida
O projeto foi entretanto contestado por autarcas e empresários do Alentejo. que recusam a ficar ver passar os comboios numa linha desenhada para o transporte de contentores entre o porto de Sines e Badajoz, deixando de parte as populações e a atividade económica da região.
O presidente da Comunidade Intermunicipal do Alentejo (CIMAC), José Calixto, defende a construção de um entreposto de mercadorias para servir a denominada “Zona dos Mármores” e produtos endógenos da região como vinhos, cortiça e carne de porco, que será exportada para a China. Para além disso, existe um protocolo entre a IP e a associação de municípios para a construção de uma estação entre as localidades de Redondo e Alandroal, que poderá se situar num dos cruzamentos técnicos projetados.
Tal investimento seguiria o Plano Regional de Ordenamento do Território do Alentejo (PROTA), aprovado pelo Conselho de Ministros em 2010, que aposta no fortaleciento e na qualificação do Eixo Urbano dos Mármores, Estremoz-Borba-Vila Viçosa-Alandroal e Sousel, que será atravessado pela futura ligação ferroviária Évora – Elvas.
O projeto foi reivindicado pelo deputado do PCP João Oliveira, eleito por Évora. A Assembleia da República deu luz verde à construção de uma infraestrutura na zona do Alandroal que poderia servir de entreposto para mármores e outras mercadorias, bem como uma estação ou apeadeiro que também contemplasse os passageiros.
Por outro lado, o presidente da câmara de Elvas, Nuno Mocinha, eleito pelo PS, levantou uma série de dúvidas face ao projeto. Inicialmente, ficou com a ideia de que esta linha era apenas para o serviço de mercadorias, mas face à possibilidade de Badajoz poder ficar a duas horas de Lisboa através do serviço Intercidades, não compreende porque razão não está prevista a construção de uma nova estação que sirva a cidade, apesar de atualmente existir uma interface, junto ao terminal de mercadorias.
“A câmara nunca foi ouvida sobre essa questão dos passageiros. Primeiro íamos ter o TGV e ficámos todos contentes; depois, de repente, não íamos ter nada; depois falaram-nos em recuperar a Linha do Leste [Entroncamento — Portalegre — Elvas], mas não vimos nada; e depois soubemos desta linha Évora – Elvas e já ficámos outra vez satisfeitos”, disse o autarca, em declarações ao Público.
Já João Pires, da Associação Empresarial de Elvas, considera injusto que o futuro traçado não contempla os passageiros, e defende a construção de uma nova estação em Elvas, para que seja possível apanhar um comboio que demore duas horas para chegar a Lisboa. Atualmente, os autocarros da Rede Expressos demoram cerca de três horas a fazerem o mesmo percurso.





